Álbum raro de Elza Soares é lançado em comemoração aos seus 90 anos

Elza Soares completou 90 anos no último dia 23 de junho, e, os fãs ganharam um super presente: o raro álbum Senhora da Terra, de 1978, chega hoje às plataformas de streaming.

Arranjado por João de Aquino, o álbum “Elza negra, negra Elza”, já se encontrava disponível em streaming com uma sonoridade entre o samba tradicional (“Como lutei”, “Artimanha”), o samba endiabrado pop e/ou jazzístico (“Cobra cainana”, “É isso aí” e “O porteiro me enganou”), bossa nova (“Fim de noite”), canções de atmosfera afro (“Timbó”, “Samba do Mirerê/ Capitão do mato”) e até uma embolada (“Olindina”).

“Senhora da Terra” ostentando o auge de sua maturidade vocal, com a sarcástica “Põe pimenta” (Beto Sem Braço/ Jorginho Saberás), com uma ostensiva crítica social, que à época ganhou até um hilariante clipe em televisão, com a cantora fantasiada de cozinheiro munida de um imenso bigode: “Põe pimenta, malagueta/ Põe pimenta que é pra ver se o povo aguenta!”.

A segunda faixa é a sexy “Coração vadio”, dos baianos Edil Pacheco e Paulinho Diniz, em que a cantora deita e rola nos improvisos vocais guturais, que só ela foi capaz de fazer na história da música brasileira. Segue “O morro”, raríssima parceria dos saudosos Mauro Duarte e Dona Ivone Lara, sobre as agruras da vida em meio à rotina violenta dos morros cariocas – desgraçadamente ainda muito atual: “Tentando por todos os meios/ Meios pra sobreviver/ Num local onde a morte é o caminho menos mal/ Juro não vou desistir/ mesmo se ninguém me socorrer/ Apesar de saber que a luta é um tanto desigual”.

“Exaltação ao Rio São Francisco” (Waltinho/ Zezé do Pandeiro/ João Leonel) é a única regravação do álbum, mesmo assim bastante desconhecida, do samba-enredo que a escola Unidos dos Passos, de Juiz de Fora, havia desfilado no carnaval de 1977. O enredo discorria sobre a transposição do nosso rio mais famoso, que atravessa o coração do país, o São Francisco, quase trinta anos antes da Mangueira se valer do mesmo tema, o que se deu apenas em 2006: “Ei, ei, vaqueiro, é hora de passar/ Sacudindo o boi cansado para a boiada se salvar”.

As raízes afro-religiosas aparecem no samba “Afoxé” (Heraldo Farias/ João Belém) contrastando com o mais dolente “Maria Pequena” (Guaracy de Castro/ Roberto Nepomuceno), sobre “a primeira porta estandarte da escola de samba” que deu à luz em meio a um desfile na avenida. Por sua vez, “Abertura”, de autoria da cantora, é um samba faz referência à abertura política naquele ano de 1979, quando o AI-5 finalmente havia caído e a anistia aos exilados políticos se concretizou: “Abre a porta/ Abre o peito, abertura/ Linha fraca, linha forte, linha dura”.

“Alegria do povo” (Luís Luz/ Ari do Cavaco) é um samba animado homônimo ao que a cantora gravaria seis anos depois em tributo a seu ex-marido então falecido, Mané Garrincha. Este, entretanto, não tem nada de melancólico, é uma elegia ao próprio ritmo. Também autorreferente,“O carnaval” (Gerson Alves/ Valentim) já sinalizava as transformações nas estruturas dos desfiles das escolas e o quão era importante o samba como uma cultura negra de resistência (em 2003 ela o regravaria no CD “Vivo feliz” com o nome de “Lata d’água”): “Samba mandou me dizer/ Que precisa de tempo pra pensar/ Ou mudar a cadência do samba do morro/ Ou resolver mudar o morro de lugar”. Da mesma dupla de autores, e de forma mais ostensiva que na faixa 2, “O morro”, reaparece o tema da violência crescente nos morros cariocas – aliás, antecipando o que Bezerra da Silva faria nas décadas seguintes, de 80 e 90 –, em “Vê só malandragem”: “Alerta no morro é sujeira geral/ Otário vira cavalo de pau”.

O álbum é encerrado com composições de grandes baluartes da música brasileira. “Paródia do consumidor” trazia a festejada dupla Wilson Moreira e Nei Lopes, que naquele mesmo ano de 1979 daria à Alcione o hit “Gostoso veneno”, e “Senhora liberdade” à Zezé Motta. Esse samba, no entanto, remete à irreverência e ao sarcasmo das duas primeiras faixas deste álbum, “Põe pimenta” e “Coração vadio”, com a cantora fazendo troça nos versos: “Só chiar não dá/ A lei está a nosso favor/ Vamos virar a mesa/ Em defesa do consumidor”. Por fim, “Barraquinho”, do craque dos carnavais e também do sambalanço, João Roberto Kelly, autor do terceiro grande sucesso da sambista, “Boato”, nos idos de 1960, desta vez comparecia com mais um samba gaiato que, a exemplo da gravação citada, Elza imitava a cantora paulista Isaurinha Garcia nos versos: “Eu sou aquele barraquinho de madeira/ Que ainda vive pendurado lá no morro de Mangueira/ Você que é cobertura de Ipanema/ Não escuta os meus anseios/ Nem resolve os meus problemas”.

A cozinha instrumental do álbum não poderia ser melhor. Só grandes músicos de samba: Wilson das Neves e Juquinha (bateria), Dino 7 Cordas (violão), Neco (violão 6 cordas e cavaco), Jaime Araújo (flauta), Geraldo (tumbadora) e As Gatas no coro, além de vocal, solos de violão de 6 cordas do maestro Luiz Roberto, que assina os arranjos juntamente com o maestro Nelsinho. A percussão ficou a cargo de Cordinho, Luna, Eliseu, Marçal, Risadinha, grupo Pandeiros de Ouro e Zequinha.

Post Author: Redação

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